domingo, 27 de dezembro de 2009

A Hipnose Anual

Hipnose é um método terapêutico multiprofissional, uma técnica que consiste em chegar a um estado mental, de não-sono, chamado de transe, em que a pessoa é induzida a tal situação por uma série de instruções rotineiras em uma voz suave.

O termo hipnose advém do grego hipnos (que é também um deus grego), significando sono e do latim osis definindo-se como ação ou processo. Diferente do que muitas pessoas possam possuir de informação, Sigmund Freud, não era psicólogo, mas psicanalista e idealizador desta, e também não foi o sugestionador da técnica hipnótica; há muitos anos ela já vinha sido usada crendo-se equivocadamente ser ela uma espécie de sono induzido.

É importante ressaltar que nem todos possuem condições pessoais para ser um hipnotizador ou um hipnotizado. A técnica justamente foi abandonada pelo psicanalista Freud, pois ele mesmo não conseguia aplicá-la em todos os seus analisandos e nem todos estes conseguiam entrar em transe, sendo que alguns autores consideram o método algo duvidoso e outros ainda, um método excelente; em ambos os casos, com seus respectivos estudos científicos.

Nessa compreensão, se propõe a todos serem hipnotizados, cada qual por si mesmo, aproveitando esse inventado transitar anual – que para os meios supersticiosos, é uma forma de renovar as esperanças de um novo ciclo −, para em um transe diferenciado, isto é, altamente consciente e ressignificante, possa refletir sensitivamente de como você pode existir sendo um ser de possibilidades, permitindo-se efetivamente criar, sendo o senhor de si, não alienado, identificando o seu ser só e estar com, bem como, reconhecendo a si e ao outro, emitindo constantemente intenso amor inventado.

E para um transe adequado, convém abrir os sentidos e experimentar (para alguns mais uma vez) o poema de Carlos Drummond de Andrade, intitulado “Passagem de Ano”:


O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e
[coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.



Complementando, Letícia Thompson, nos relembra que


Se pudéssemos ter consciência do quanto nossa vida é efêmera,
talvez pensássemos duas vezes antes de jogar fora as oportunidades [...]

Muitas flores são colhidas cedo demais.
Algumas, mesmo ainda em botão.
Há sementes que nunca brotam e
há aquelas flores que vivem a vida inteira até que,
pétala por pétala, tranqüilas, vividas, se entregam ao vento.

Mas a gente não sabe adivinhar.
A gente não sabe por quanto tempo estará enfeitando esse Éden
e tampouco aquelas flores que foram plantadas ao nosso redor.
E descuidados. Cuidamos pouco. De nós, dos outros.

Nos entristecemos por coisas pequenas e perdemos minutos e horas
[preciosas.
Perdemos dias, às vezes anos.
Nos calamos quando deveríamos falar;
falamos demais quando deveríamos ficar em silêncio.

[...]

Ainda é tempo de apreciar as flores que estão inteiras ao nosso redor. [...]



domingo, 20 de dezembro de 2009

Recantos de Experiências

O Ente é um ser sensível e racional, um humano passível de experimentar modificações ampliadoras.

Cientificamente, a experiência é um contato epistêmico que usualmente é perceptual e característico com aquilo que se apresenta a percepção, a memória, a imaginação e a introspecção. A experiência é o contato direto com certo conteúdo: ao olhar para uma árvore, cada um tem uma experiência característica de uma árvore; ao visualizar um carro, experiencia-se particularmente um carro; ao ouvir uma música, prova-se singularmente aquela música.

Assim, experienciando, e. g., quando entro em uma biblioteca pública ou particular, ao passar pela porta, sinto de imediato outro ambiente. No ambiente externo encontravam-se pessoas alvoroçadas, correndo, comprando, vendendo, discutindo, crianças chorando... variadas fisionomias, diversas experiências existenciais. No novo ambiente que entrei também encontro diversas pessoas e distintas existências; todavia, são personagens serenos que estão num local inteiramente tranqüilo, o que lhes possibilitam abrir seus sentidos e pensamento e absorver integralmente as idéias contidas num livro, revista, ou até mesmo numa pesquisa virtual, bem como em qualquer que seja sua atividade.

Por mais assustador que possa parecer para alguns de meus amantes, um local que irregularmente me apresento são os edifícios religiosos. Há alguns meses estive em um, e por lá fiquei umas duas horas, lendo um livro sem credos, devoção e sacramentos. Além de entrar em contato com a obra, pude observar pessoas que também entravam em um local à procura de ausência de turbulência para sentir a si mesmas, bem como a estética daquele espaço físico que para alguns é transcendental.

Entende-se que a experiência estética é decorrente de uma atmosfera afetiva, porque o ente capta cognitivamente as situações que o rodeiam através dos seus sentidos, manifestando possibilidades de sentimentos, e valorando o que contemplam.

Naquele templo, por intensos momentos alguns integrantes me observavam com aparente desdém, pois sabem que não sou religioso e havia a possibilidade de me expulsarem, visto que já vi em muitas celebrações o extermínio de alcoolistas e de moradores de ruas, que em suas compreensões, aparentemente poderiam insultar Deus ou até mesmo incomodar os pop-stars da moda que ali se encontravam: uma espécie de heresia moderna.

Durante minhas horas de residência naquele local de adoração, senti pessoas totalmente devotas, mas também sofredoras. Algumas buscavam perdão outras solicitavam proteção e auxílio contra enfermidades e crenças diversas, cada um com a sua petição de fé; e em alguns casos barganhavam com promessas. Nestas sensações, pude acompanhar durante o tempo que permaneci naquele castelo reinante, dois atores sociais que existiam sem lugar efetivo. Eles não possuíam endereço, documentos, e estavam abandonadas na e pela sociedade, porém nela existem. Como ficamos naquele local pelo mesmo intervalo de tempo eles me olhavam constantemente. Eu, sentado sempre ao fundo, continuando atenciosamente minha leitura e eles, localizados medianamente, e em extremos, cansados, várias vezes dormiam, constantemente sussurravam e experienciavam o local, podendo sentir-se protegidos, valorando-o como um espaço de abrigo e paz, até que outrem moral pudesse vir os incomodar.

Como sou um ente de existência universal, pode parecer estranho para muitos eu estar num local religioso. Contudo, para mim, é apenas um ambiente e o aprecio pela tranqüilidade quase inexistente na atualidade, e que oportunizam para as pessoas a se encontrarem e estarem em contato consigo mesmas, podendo até experienciar o seu ser só. Raramente frequento, porém ali, diurnamente comparecem existências sinceras de amor, todavia, às vezes hiper-dependentes. Apesar disso, é um dos recantos de experiências que possibilitam ao ser possuir um temporário espaço para momentos felizes, favorecendo aprendizado (registros existenciais) e modificações ampliadoras, e uma possibilidade de práxis para empregarem o verbo transitivo direto: Criar.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Simplesmente uma Amante Criativa e Feliz

A Família é considerada a unidade básica da sociedade e é formada por indivíduos com ancestrais em comum ou ligados por laços afetivos.

Considerando isto, durante a aplicação de um projeto realizado com pessoas em tratamento oncológico, para Formação de Grupos de Apoio, a todo o momento foi resgatado pelo próprio enfermo ou acompanhante o seu histórico familiar: situações existenciais e não exclusivamente o diagnóstico de câncer ou a possibilidade deste.

Entende-se que a Cancerologia é também chamada de Oncologia, e é a especialidade médica que estuda os tumores e a forma de como essas doenças se desenvolvem no organismo, buscando seu tratamento. Cada tipo de câncer tem seu tratamento específico, sendo atualmente, inúmeras as possibilidades. Na oncologia atual é de suma importância o tratamento multidisciplinar, envolvendo médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e muitos outros profissionais, devido à complexidade dos casos e da preocupação existencial com o ser humano.

Neste Projeto desenvolvido, minha amiga e eu, conjuntamente, tivemos a oportunidade de encontramos uma senhora que, sem inibição aparente, declarou parte de seu histórico existencial ao grupo ali estabelecido. Infelizmente ela foi interrompida, pois teve que ir para o atendimento médico, mas para nossa surpresa e total acolhimento, ela voltou e, continuando, nos contou por longos e agradáveis momentos a sua história. Importante esclarecer que o tratamento não é para ela, mas para um de seus familiares.

Em sua história, relatou que teve um total de dezoito irmãos, sendo que quatro faleceram, porém seu pai não chegou a conhecer o último, visto que ele se ausentou de casa quando sua mãe ainda estava grávida, sem mais noticiar sua existência. Residindo no nordeste, nos relatou o quanto ela, os irmãos e a mãe sofreram pela perversidade de seu pai, porque apanharam muito. Essa senhora, atualmente com seus quarenta e poucos anos de idade, em sua adolescência, fugiu de casa momentos antes que o pai abandonasse a casa familiar, todavia mantém até hoje contato com os familiares; afastou-se de sua naturalidade com seus doze anos de idade, conseguindo rapidamente um emprego em um estado da região centro-oeste brasileira, como pajem. Alguns anos depois, conheceu seu atual marido e mudou-se para a região sudeste, constituindo sua família; sendo que, seu sonho (latente), como ela mesma disse em lágrimas, era re-encontrar seu pai. Recentemente, há mais de um ano, seu pai é quem a encontra sendo que ele estava no norte do país, mas ela cria meios para trazer o mesmo para o sudeste. Ao encontrá-lo ele estava sofrendo gravemente de câncer, com uma abertura na virilha, fétida e expelindo secreções, bem como com o escroto extremamente avantajado. Imediatamente o encaminhou e o acompanhou para um hospital e cuida do mesmo até hoje, sendo que seu prognóstico anterior era vitalmente limitado.

Ocorre que, a família ao saber do retorno do pai e marido desaparecido, bem como do acolhimento ofertado pela filha fugitiva, os familiares evitam contato com ela, indagando eles que depois de tanto sofrimento ocasionado por esse pai, como ela pode proporcionar essa proteção? Nas palavras dela, nos confessa que apenas queria rever o pai, pois esse sempre foi o seu sonho, e isso a faz muito feliz; porém ela compreende os familiares, mas eles não a entendem. Todavia, aos poucos está conseguindo progressos.

Para sua felicidade e de seus confluentes, atualmente seu pai se encontra em um tratamento positivo em ascendência, mas ele não gosta de falar sobre o passado.

O que me encanta nessa história é a capacidade dessa senhora de mesmo ter tido como protótipo uma enorme e maltratada família, saindo de casa e iniciando um trabalho empregatício com uma década de idade, ela não negou sua vontade de ser feliz. Ela viveu e reconheceu cada momento, deparou-se, de acordo com a mesma, com um excelente esposo, e possui uma magnífica filha; e ao contrário de todo sofrimento que recebeu, sentindo-o em sua existência, ela plantou o amor e o colhe, dizendo com orgulho, tudo o que conseguiu alcançar e o que ainda conquista. Ela é um símbolo de uma existência amorosa, enriquecida constantemente com diálogo, que escolheu o criar sua existência num ser só, estabelecendo um estar com, lecionando e aprendendo incansavelmente o afeto relacional, e sem cessar, alimentando-se dos frutos que junto com sua família criativa pode fecundar.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Olhar Sobre a Tempestade

K., é uma pessoa jovial. Reclama ele que em seu quarto existe um senhor muito velho e que a imagem deste ser desconhecido o atormenta. Disse-me ele: “Assim que entro em meu quarto, lá está ele, encostado na parede; sempre no mesmo local, fitando-me. Eu o vejo assim que abro a porta, mas assim que me viro, não o vejo e não sinto sua presença”.

Diriam muitos que ele é um psicótico. Uma pessoa doente e que se encontra em um estágio grave de um transtorno psíquico, que o faz se ausentar da realidade. Porém, seu caso e ele comunicam muitas possibilidades.

Consideramos que a Linguagem é qualquer e todo sistema de signos que serve de meio de comunicação de idéias ou sentimentos através de signos convencionais, sonoros, gráficos, gestuais, entre outros, podendo ser percebida pelos diversos órgãos dos sentidos, o que leva a distinguirem-se várias espécies de linguagem: visual, auditiva, tátil, gustativa, olfativa e sinestésica.

Durante um trabalho psicológico que minha amiga e eu realizamos em Oncologia, ouvimos variadas histórias de enfermos e de seus familiares. Uma delas é a de uma cansada senhora que acompanhava seu marido, juntamente com um casal de filhos, sendo a filha, próxima dos 40 anos de idade e atualmente viúva.

Realizando nosso trabalho, considerado pelos enfermos e familiares como muito importante, a senhora nos contou sua trajetória de vida. Seu esposo sofre há aproximadamente cinco anos, contudo não sabem o que o mesmo possa ter. Durante todos esses anos ele era medicado na cidade em que reside, todavia recentemente, o encaminharam para uma cidade onde pudesse averiguar a possibilidade de diagnóstico de câncer.

As descrições de sua esposa quanto aos fatos que ocorrem com seu marido não merecem ser descritas, pois isso não é um tratado médico; apenas relato seu desespero e incompreensão quanto às situações em que vivem devido a uma enfermidade desconhecida. Há muito sofrimento de toda a família, porém, ela nos relata o quanto sofreu e ainda sofre, porém, no presente nos narra com orgulho sua superação.

Ela nos informou o quanto sofreu no seu relacionamento pela agressividade do marido; a quantidade de vezes que apanhou e viu os filhos serem espancados; a variedade de situações em que foi obrigada a sentir frio, a dormir no quintal, por ser expulsa temporariamente de sua morada, e ainda calar os filhos para o descanso do esposo. Com lágrimas nos olhos e um sorriso acanhado de superação ela também expõe a diferença que foi o casamento da filha. Esta se casou, tem dois filhos, todavia hoje se encontra viúva devido a um infarto que acometeu seu incansavelmente amoroso marido. Alegrando-se, ela nos conta os benefícios no relacionamento que sua filha pode experienciar, mas ela não. Seu genro era O Genro; com sua filha era sempre atencioso, sempre estava perto da esposa e incansavelmente a elogiava, abraçava ou simplesmente a acariciava; enquanto papel de pai, ele estava construindo um lar ensinando os filhos o que é o carinho e amor; afirmou que ele nunca faltava.

Esta senhora é uma pessoa considerada Resiliente. Mesmo no sofrimento, pode suportar e ressignificar seus dificultuosos momentos, e hoje é ela quem cuida de quem a maltratou por anos.

Similarmente a essa história convém nos lembrarmos do lançamento, em 2008, do filme “The Life Before Her Eyes”. Ele conta a história de uma imaginativa e impetuosa adolescente que junto com sua amiga aguardavam ansiosas o fim dos últimos dias de colégio. Todavia, em um destes dias, um aluno comete um atentado na escola, assassinando vários alunos. A protagonista sobrevive, mas sua amiga não. Pelos próximos quinze anos, residindo na mesma cidade, porém com uma filha e um marido, ela ainda é atormentada, culpando-se pelo assassínio de sua jovem e melhor amiga. Durante a trama, podemos estar atentos não apenas as suas falas, mas a seus pensamentos que são emitidos como cenas às vezes obscuras de compreensão e tímidas aos recursos de flashes cinematográfico; essa é também sua linguagem. Ressignificativamente, ela revive todos os fatos e utilizando-se da capacidade que o ser humano tem de se restabelecer, que é profetizada desde os filósofos gregos, ela consegue construir uma existência estável se eximindo da culpa que na realidade apenas existiu em seu pensamento.

Em todos esses casos, podemos notar o uso de uma linguagem e a capacidade que o expressar linguístico possui, até mesmo para esse caso cinematográfico, em que a personagem utiliza-se de signos para movimentar o pensamento, que a auxilia a superar seus conflitos.

K. não existe em meu repertório de atendimentos psicoterápicos até o momento; mas já os vi, os ouvi e li. A história de K., aqui nos permite caminhar para a compreensão dos outros históricos descritos. Nos dois últimos casos, elas, cada qual a sua maneira usam o mesmo recurso que seria utilizado por K., que é o experienciar sua dor e num porvir compreender e reelaborar seus juízos sobre os momentos tempestuosos que viveram, utilizando, não quimicamente, colírio em seus olhos. Na realidade, K. tinha medo do envelhecer e de sua crença de que a idade traz o sofrimento; não existia um ancião em seu quarto, ele se refletia num espelho, mas via seu medo e seu sofrimento.

Houve aqui, sofrimento, angústias e ressentimentos, bem como de seus confluentes. Todavia, tais pessoas em sua singularidade o viveram como puderam; porém, criaram um novo significado a suas dores, o que lhes possibilitou o aprendizado e crescimento, tanto em si mesmo como dos que os observavam com um olhar atento.

Em todas as histórias, uma por uma, o sofrimento e a tempestade estiveram ocorrendo em dias distintos, e, utilizando o espelho de sua existência, sua personagem fixa sua face, revive seus conflitos e angústias oferecendo a si mesma uma harmonia que produz e cria sabedoria e crescimento, bem como felicidade; todos estes com brotos verdes – que demonstraram existir mesmo depois de tempestades de inverno –, florindo e se ramificando.


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Psicoterapia das Políticas Públicas

Política Pública é um conceito usualmente da Política e da Administração designando uma orientação para tomada de decisões que podem ser para assuntos públicos, políticos ou coletivos.

Definindo, pode-se entender por Políticas Públicas, a compreensão de Guareschi et. al. (2004, p. 180) em “Problematizando as Práticas Psicológicas no Modo de Entender a Violência”, como


o conjunto de ações coletivas voltadas para a garantia dos direitos sociais, configurando um compromisso público que visa dar conta de determinada demanda, em diversas áreas. Expressa a transformação daquilo que é do âmbito privado em ações coletivas no espaço público (In: Strey; Azambuja; Jaeger (orgs.) “Violência, Gênero e Políticas Públicas”).


No entanto, existem divergências entre políticas públicas e decisões políticas. Nem toda decisão política chega a ser uma política pública. A decisão política é uma escolha entre várias alternativas, já a política pública, que engloba também a decisão política, é compreendida como uma práxis e está direcionada a questões emancipatórias ao direito e à satisfação das necessidades básicas, como emprego, educação, saúde, habitação, acesso à terra, meio ambiente, entre outros.

Porém, como nos ensina Tassara (2004, passim) em “Avaliação de Projetos Sociais: uma alternativa política de inclusão?”, esta afirma que:


[...] quando se inicia o desenvolvimento de um projeto social, antes de qualquer coisa, é preciso definir quem é esse sujeito, que deverá vir a ser ‘igual do igual’, que se pretende atingir. Se o objetivo desse projeto, por exemplo, for a inclusão de excluídos e a definição de quem são, e porque são, os sujeitos dessa exclusão não estão claros, ou parte-se de um modelo de desejabilidade cuja delimitação não está bem configurada, não ficará claro também o que deve ser avaliado. [...] Tem-se também, que definir: o que é bom? O que é desejado? O que vai ser transformado? Quem ou o que precisa ser objeto de uma intervenção social para se transformar, passar de uma condição a outra? E, para tanto, é preciso priorizar alguns critérios em detrimento de outros. [...] Em geral, tais projetos aspiram a inclusão de alguma coisa ou de algum grupo em um quadro de desejabilidade. Mas não se pode deixar de perguntar: por que o excluído incomoda? A quem ele incomoda? Se, por um lado, professa-se valores da justiça social, considera-se valores intrínsecos à Declaração Universal dos Direitos do Homem como válidos para todos, e considera-se o direito de ‘ser’ como o direito público fundamental, independentemente de quais crenças ou hábitos signifique; por outro, busca-se a inclusão. [...] As políticas públicas deveriam incentivar a inclusão, mas isso não acontece porque as políticas públicas não estão voltadas para a redução das desigualdades territoriais de desenvolvimento existentes em nossa sociedade (In: Souza; Trindade (orgs.) “Violência e Exclusão: convivendo com paradoxos”).


Na atualidade, diante dos fatos sociais e literários, são de questões relevantes o modo em que vive o ser humano na sociedade; e o fato de que até mesmo antes da declaração dos direitos do homem, já havia preocupações com a coletividade.

Isso nos permite refletir para um efetivo praticar, bem como para visualizar a moda que é o surgimento do termo Políticas Públicas no âmbito da Psicologia, por exemplo. Na Academia, para cada intervalo de vírgulas existe esta expressão. No meu acompanhamento, o termo apenas adveio oferecendo as sensações de esperança e um trocar de termos: de desgastados, por outros, expressivos; pois quando as pessoas se referem às Políticas Públicas, sinto muita energia e encantamento, mas nenhum modificar que já não vinha em andamento. Aparentemente nada se modificou para um melhorar das pessoas. Os profissionais continuam com os mesmos projetos psicológicos, baseados na reprodução dos mesmos autores, com a mesma retórica estando apenas com um novo termo teórico: Políticas Públicas.

Ainda hoje é bonito nela falar, pois indica que se está informado, atualizado. Todavia, depois de alguns anos, ficou clarividente que emergia nas atividades psicoterapêuticas um vocábulo sofrível e não uma nova práxis, pois atualmente quem necessita de psicoterapia (e não é atendida) são as ditas Políticas Públicas que são molestadas e fadigamente torturadas pelo extensivo trabalho que lhe designaram: o de substituir Pinky and the Brain, e realmente tentar conquistar o mundo, em palavras claras, pela dominação e devoção, tornando tudo coletivo sem metodologias adequadas bem como ausência de reflexões sobre as conseqüências; portanto, divulgando uma mensagem hitleriana e para quem sabe num porvir convocar as massas para executar tal determinação.



segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Pincéis, Tinta e um Toque de Consciência

Dia da Consciência Negra. Apenas algumas e relevantes palavras.

Esta data foi estabelecida pelo Projeto-Lei n. 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003. Foi escolhida a data de 20 de novembro, pois foi neste dia, no ano de 1695, que faleceu Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares.

Os quilombos representavam, teoricamente, uma resistência ao sistema escravista e também um forma coletiva de manutenção da cultura africana aqui no Brasil. Historicamente, Zumbi lutou até a morte por esta cultura e pela liberdade do seu povo.

Transmite-se a idéia de que a homenagem a Zumbi foi mais do que justa, pois este personagem histórico representou a luta do negro contra a escravidão, no período do Brasil Colonial. Ele morreu em combate, defendendo seu povo e sua comunidade. Porém, apesar das várias dúvidas levantadas quanto ao caráter de Zumbi, nos últimos anos, comprovou-se, por exemplo, que ele mantinha escravos particulares.

Pensa-se que a criação desta data foi importante, também, pois serve como um momento de conscientização e reflexão sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da cultura nacional. Porém, possuo dúvidas se seria um dia de reflexão. Notemos: Dia de reflexão-prática, ou churrasco, festa particular, rave? Não precisa responder. Entendo!

Claro que sua atitude festiva não impede o reconhecimento de que os negros africanos colaboraram muito durante nossa história, nos aspectos políticos, sociais, gastronômicos e religiosos de nosso país. É um dia, com qualquer outro, que devemos praticar em ações, onde quer que estejamos: nas escolas, nos espaços culturais entre outros de sua escolha cotidiana, valorizando a cultura afro-brasileira.

Sabe-se, que a abolição da escravatura, de forma oficial, só veio em 1888. Porém, os negros, nem todos, sempre resistiram e lutaram contra a opressão e as injustiças advindas da escravidão, como hoje.

Vale mencionar também que sempre ocorreu uma valorização dos personagens históricos de cor branca. Como se a história do Brasil, ou mundial, tivesse sido construída somente pelos europeus e seus descendentes. Imperadores, navegadores, bandeirantes, líderes militares entre outros foram sempre considerados heróis nacionais. Mas quem esteve junto? A humanidade e seus tons! Agora temos a valorização de um líder negro, em um dia oficial, em nossa história; os outros dias representam uma consciência branca?

Isso é um pouco, teórica e historicamente a trajetória do racismo, mas você deve ter observado que nem precisa muito se falar, pois muito racismo já se celebra no Dia da CONSCIÊNCIA NEGRA!

E, para finalizar, apenas tenho uma dúvida: “Desde quando a consciência tem cor?” Teoricamente há um reconhecimento, porém com uma prática ainda não criada. Eita, pré-conceito manchado e encardido difícil de sair, hein!



sábado, 7 de novembro de 2009

Sexo: Uma Profunda Necessidade de Comunicação

A Comunicação humana é um processo que envolve a troca de informações, e utiliza os sistemas simbólicos como suporte para este fim. Está envolvida neste processo uma infinidade de maneiras de se comunicar: verbal, visual e gestual; presencial e virtual.

Usando-se da comunicação existente, consideravelmente você julga pessoas ou as ouve sendo condenadas pelos outros por algum de seus atos tidos como abomináveis e incomuns. Às vezes pode ser você que tenha rótulos. Todavia uns comem ovo frito com a gema cozida, e outros apenas inteiramente cozidos. São raras as pessoas que estudam as classificações; estas nos impedem, muitas vezes, de conhecer a complexidade de fatos e pessoas de forma honesta e compreensiva.

Deferenciando fatos, em 2006, foi lançado o filme Shortbus. O público não educado para o diferente, possuindo em si uma fragilidade emocional ficou espantado, visto que a trama evidencia e mostra o sexo de diversas formas e fases. No filme, há uma terapeuta de casais, casada, que nunca teve um orgasmo. Entre seus clientes estão um casal homossexual masculino, que mantém uma relação que começa a prejudicar emocionalmente a ambos. Há ainda uma Dominatrix em práticas do BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo), ou seja, sem contato sexual, e que mantém sua vida em segredo e não se abre para as pessoas. Todos se encontram regularmente no Shortbus, um clube underground onde arte, música, política e sexo se misturam.

A relação sexual humana é uma comunicação, ou pelo menos as pessoas deveriam entender isso e ouvir o que ela tem a dizer, até mesmo para os não praticantes. Primeiro, na relação ocorrem atividades preliminares que são prévias ao ato sexual. As preliminares, diminuem a inibição e aumentam o conforto emocional dos parceiros e também podem levam à excitação sexual dos mesmos, resultando na ereção do pênis e na lubrificação natural e dilatação da vagina.

Em conseqüência, o ato sexual propriamente dito pode ser compreendido como todas as formas de atividade sexual e variedades de como ocorre a penetração: sexo vaginal e o sexo anal, assim como todo tipo de sexo não-penetrativo: o sexo oral que se subdivide em: cunilíngua (praticado na mulher), felação (praticado no homem) e anilíngua ou anilingus (praticado em ambos). O ato sexual permite que se alcance uma satisfação, preferencialmente mútua, ou o orgasmo. Mas, qual a mensagem?

A relação sexual tipicamente representa um poderoso papel no relacionamento humano, sendo em muitas sociedades normal aos pares terem atividades sexuais freqüentemente enquanto usam contraceptivos, como forma de compartilhar o prazer, reforçando e fortalecendo sua ligação emocional através do sexo.

Seu objetivo primordial era a reprodução e continuidade da sobrevivência da espécie humana. Atualmente ela é freqüentemente praticada por prazer e/ou como uma expressão de amor e intimidade emocional. Todavia, sendo ela também uma forma de comunicação deveria ser ouvida e não silenciada.

Falar sobre sexo é algo que poucos fazerem, pois muitos são censurados e rotulados como praticantes desenfreados. As pessoas atualmente fazem mais sexo, porém possuem menos informações sobre ele, geralmente entendendo-o como agrado e divertimento, e por conseqüência não aprendendo e não ensinando suas possibilidades de compreensão pessoais, do outro e da relação que se estabelece com outrem, seja ela duradoura ou fugaz.

Nos casos mais atuais as pessoas possuem relacionamentos passageiros, as curtições. Alguns significados dessa palavra nos revelam sua referência a desfrutar algo com intenso prazer. Mas o que faz pessoas quererem algo transitório, algo tão veloz? Shortbus aborda tal assunto. Ele não é claro em seus argumentos, mas é intensamente representativo em suas personagens. Expõe ele que as pessoas estão emocionalmente perdidas, e encontram no corpo o meio comunicativo pelo qual as pessoas podem lidar com seus sentimentos e conflitos, porém não percebem seus atos. Hoje, tudo é sexo, mas a existência, em seu pólo essencial, não se resume a relação sexual, e sim, a relação comunicacional.

Deste modo, num momento da existência social em que as pessoas são caladas, alienadas pelo consumir descomedido, praticam o sexo, comunicando-se consigo mesmas, mas não se ouvem. Na prática sexual, tentam e sentem; experimentam e se divertem; ensaiam e não possuem volúpia, e começam novamente, a praticar com outros. Todavia, gerando um nevoeiro mental, não enxergando a si mesmo e ao próximo, apenas conseguem construir uma colcha retalhada de afetos que pouco cobre e nada aquece.


domingo, 1 de novembro de 2009

O Júri da Humanidade

As pessoas geralmente esperam demasiadamente; e esperam dos outros. Expus em “A Questão Humana da Esperança” que as pessoas são esperançosas. Esperança além de uma crença emocional que visa a possibilidade de resultados positivos relacionados a eventos e circunstâncias da vida pessoal, que requer uma perseverança, isto é, acreditar que algo é possível mesmo quando há indicação do contrário. Esperança é também símbolo da mitologia romana, uma deusa, considerada a irmã do sono e ofertadora de um culto artificial para a população. Muitos tramitam vitalmente tendo que provar que são capazes e tantos outros esperam tal atitude.

As pessoas passaram a ser examinadas em todos os aspectos. Para tudo se tem a necessidade de proporcionar documentos que indiquem, em alguns casos, compreensíveis, já que possuímos um sistema jurídico (demonstrando que a sua existência é a fraqueza da população); e em outros casos, solicitam provar se você aprendeu e o que estudou. Porém, como examinar se alguns possuem excelente memória, transcrevendo ipsis litteris.



A prática escolar usualmente denominada de avaliação da aprendizagem pouco tem a ver com avaliação. Ela constitui-se muito mais de provas/exames do que de avaliação. Provas/exames têm por finalidade, no caso da aprendizagem escolar, verificar o nível de desempenho do educando em determinado conteúdo (entendendo por conteúdo o conjunto de informações, habilidades motoras, habilidades mentais, convicções, criatividade etc.) e classificá-lo em termos de aprovação/reprovação (Luckesi. “Avaliação da Aprendizagem Escolar: um ato amoroso” In: Avaliação da Aprendizagem Escolar, 2003, p. 168, grifo meu).


[...] os professores devem acreditar sinceramente nas capacidades dos seus alunos, ganhando confiança deles a partir do respeito mútuo. Tem que avaliar o aluno pelo que é, confiando nele e dando condições para que aprenda a confiar em si mesmo. Neste sentido, dado o importante papel que desempenham as expectativas dos professores para com os alunos, será preciso encontrar em todos os alunos aspectos positivos (posto que sem dúvida existem) e que as expectativas se expressem convenientemente (Zabala. “As relações interativas em sala de aula: o papel dos professores e dos alunos” In: A Prática Educativa: como ensinar, 1998, p. 95, grifo meu).


[...] não se deve esquecer que o melhor incentivo ao interesse é experimentar que se está aprendendo e que pode se aprender. A percepção de que a gente mesmo é capaz de aprender atua como requisito imprescindível para atribuir sentido a uma tarefa de aprendizagem. A maneira de ver o aluno e de avaliá-lo é essencial na manifestação do interesse por aprender. O aluno encontrará o campo seguro num clima propício para aprender significativamente, num clima em que se valorize o trabalho que se faz, com explicações que o estimulem a continuar trabalhando, num marco de relações em que predomine a aceitação e a confiança, num clima que potencializa o interesse por empreender e continuar o processo pessoal de construção do conhecimento (Ibidem, p. 96, grifo meu).


Não podemos conseguir os avanços educacionais de que precisamos a menos que façamos um investimento cada vez maior em novos métodos de educação e de aprendizagem. Ninguém pensaria hoje em acender uma fogueira esfregando dois gravetos. Todavia, grande parte do que ocorre na educação baseia-se em conceitos igualmente ultrapassados (Dryden; Vos, 1996, p. 41 apud Santos. “Da administração escolar à gestão educacional: um longo caminho de mudanças” In: O gestor educacional de uma escola em mudança, 2002, p. 21, grifo meu).


Através do diálogo, refletindo juntos sobre o que sabemos e não sabemos, podemos atuar criticamente para transformar a realidade (Freire, 1986 apud Hoffmann. “Avaliação e Construção do Conhecimento” In: Avaliação: mito e desafio: uma perspectiva construtivista, 2005, p. 21, grifo meu).



Observa-se que a avaliação está em crise. Cita-se a avaliação educacional, tendo em vista que ela é a mais conhecida e a mais utilizada, para que se possa refletir e praticar o pensado. Todavia não é apenas no âmbito educacional que se é avaliado. Todos os âmbitos são de aprendizagens e contém existências.

Nota-se pessoas que se desesperam ao serem solicitadas para se auto-avaliarem. Quando o fazem se auto-flagelam. Pensam em tudo que fizeram e na insensibilidade não reconhecem seu potencial, sua energia, e suas capacidades infinitas. Olhando para um júri, existente, e às vezes alienante, não atingem a compreensão de Giles (2003):


Cheio de confiança na vida, goza de uma posição segura e tem opiniões firmes a respeito de uma realidade bem-organizada. Séculos, talvez milênios, o distanciam das amarguras da vida; não teme que venturas semelhantes se repitam ou o que dirá a História [...] (p. 11).


O fato é que temos que oferecer liberdade e empowerment para o sentir e o pensar. Deixar de reproduzir e passarmos a CRIAR não apenas em escolas, mas em todos os recintos.

As pessoas há séculos vivem em amarras; não houve a libertação de todos os escravos, e talvez alguns nem queiram ser libertos, porém, mas não apenas, porque muitos libertadores apenas desamarram os punhos.

Objetiva-se com isso, portanto, lavorar e plantar; cuidar, colher o plantio e se alimentar. No mesmo processo, frisa-se que muitos aspectos mentais em todas as instâncias da humanidade são observáveis para a Compreensão dos mesmos ao invés de serem usados para Avaliação. Todos somos alunos e professores contínua e simultaneamente. O Dialogar fenomenológico, conjunto a isto, a TPG-Existencial, são métodos e práxis de compreensão, auxílio e amor (relação/contato) para o ser humano e sua aprendizagem.

O passado é passado; o museu o sustenta. O futuro é incerto; a pseudo-esperança o ampara; são situações, no hoje, intransitáveis, mas passíveis de leves apreensões. Agora, a arte de existir é conectar e compreender sua universalidade, criar e recriar, sendo que, apenas você pode entendê-la, usá-la e manifestá-la decidindo a sua existência neste trâmite vital: sendo libertado para expressar suas possibilidades ou condenado e aprisionado pelo Júri da Humanidade, simplesmente por Existir.


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Estresse Divorcial

Há séculos, de diversas formas existe a atuação familiar: patriarcado, matriarcado e quem sabe algum dia, ou sutilmente já em vigor o filhiarcado. Uma não exclui a outra, apenas uma se torna determinante.

Há longínquos tempos, Família é uma sociedade que é adorada por muitos. Às vezes ela se desestrutura, mas sempre querem restaurá-la, ou seja, recriá-la. Fantástica é a capacidade do ser humano de tentar incansável e desesperadamente viver em grupo; mas é complicado tentar desenhar sem uma ferramenta que aplique grafia, isto é, primeiro é ser só, depois, se possível e atento, criar a possibilidade de estar com.

Uma das coisas que não ouso replicar, por enquanto, é, por que, a determinância da maioria dos doutos religiosos, que tanto ensinam em suas congregações sobre o amor e a família, são proibidos de criarem a sua? Se criassem poderiam ensinar mais proximamente seus filhos; teriam reuniões de escola, conviveriam com as pessoas que participam da vida de seus filhos, esposa ou companhiero(a), estariam em diversos lugares e não apenas com o título de religioso; e poderiam instruir num simples Contato, sendo que este é diferente de ser e ter o contato religioso. Ou não? Será que se construísse uma família entraria em conflito com os equívocos das traduções e interpretações, enfim, tradições bíblicas? Observo, outrossim, que os (religiosos) que podem se casar, não fazem muitas coisas. Então, será que criam ou reproduzem? Em tese, são questões e respostas.

É digno de nota que não precisa ser casado para ter ensinamentos de como é uma família porque não existe receita; e também não há necessidade de se ter ambos sob o mesmo teto para educar os filhos. Em ambos os casos, há apenas duas palavras unidas e amplas: criar e amar. Porém as pessoas se equivocam na aplicação.

O que destrói as capacidades humanas é a falta de amor próprio, de auto-sustentabilidade e a vontade torturante de destruir o outro, quando na realidade você nem reconhece este outro e muito menos você mesmo. Isso é o que acontece demasiadamente nas separações e nos divórcios; e neste, principalmente os litigiosos.

Minha experiência jurídica me expõe que podem ser os filhos, amigos, parentes... todos, independente da idade, sofrerem com o divórcio. Sofrem, formadora ou sinteticamente, todavia as discordâncias emergem pela ruptura do Amor Humano (entende-se: relação humanitária) e não do amor sacramental e jurídico. As pessoas não compreendem e não diferenciam; estão cegas, surdas e se descobrem de mãos e vidas vazias. Com essa ruptura de humanos, ocorre o estresse. Ele é uma soma de respostas físicas e mentais da incapacidade de distinguir entre o real e as experiências e expectativas pessoais.

Ouço sempre que estamos em progresso. No governo da humanidade, ou seja, juridicamente, a evolução é jocosamente notável, pois ainda possuímos batalhas, juízes, arenas, público, tortura física e psíquica. Prole, amigos e parentes estressados são pressionados a serem testemunhas e a favorecer uma parte, sendo que nenhum dos que disputam são importantes. Apenas alguém sorrateiramente tem que vencer. Após os conclusos, aumenta o nível de estresse.

Não é a separação em si que rompe o psiquismo e que tortura. Pais continuam a serem pais. Filhos, amigos, parentes e desconhecidos continuam a serem eles. As pessoas insensíveis e confusas suscitam rigidez e conflitos. O que acontece é que as definições de vida, existência, família, união, amor, relação, casamento e esperança são fantasiosas. As pessoas aprenderam e ensinam muitas vezes ilusão, e fazem engendrar hipocrisia, mentiras, hostilidades e infelicidades, se esquecendo que isso também está sendo doutrinado; alguém está apreendendo.

Através disto, eu, mesmo cansado, mas ainda amando, solicito a Vossa Senhoria que entenda a gênese existencial, a raiz de sua existência que é a da humanidade; visto que, é uma possibilidade que o estresse divorcial, que está em voga, possa ser destrutivo e simultaneamente um admirável e sutil professor; um instrutor que com seu giz ilusório, traça em sua lousa imaginária, as atividades, que caso sejam ressignificadas, não impedem, que mesmo com menos volume, um fardo seja um fardo; e que o carreguemos para toda a existência; e ainda que, ao toque de um impetuoso sinal escolar, seus estudantes sairão felizes e ensinarão em casa ou em qualquer outro ambiente o que foi tão divertido de aprender.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Criação de Relacionamentos Humanos

O cinema sempre me encantou; é uma arte, uma forma de comunicação. É incrível como as pessoas podem criar diversas situações, sendo algumas integralmente, e outras, sempre, no mínimo em um aspecto, baseadas na realidade.

Independente do gênero, o cinema pode ensinar e muito podemos aprender para educar. Talvez alguém diga que com o gênero de Terror ou Horror iríamos aprender ou ele iria contribuir para desenvolvermos a capacidade de torturar. Todavia, todos sabem torturar; até um bebê morde e tortura o seio que o alimenta. Isso não é novidade e muito menos algo particular de alguma teoria psicológica; isso está na existência. Não excluo essas possibilidades negativas afirmadas. Considero que pensar demasiadamente nelas é potencializá-las; todavia, equilibradamente, refleti-las, é não deixar para segundo plano o que se poderia humanitariamente aprender, ensinar e novamente tomar conhecimento com a grandiosidade de oportunidades cinematográficas.

Em 2008, o cinema nos prestigiou com uma incrível película: “Between Love and Goodbye”. Diriam alguns que é um filme homoafetivo. Eu diria que é isso, mas não apenas. Como expus acima, muito podemos aprender independente da temática. Ele conta a história de Marcel e Kyle, que possuem nacionalidades distintas e estão morando e namorando no mesmo país. Foi paixão no primeiro encontro, que se desenvolve num romance perfeito, admirável aos olhos de todos. Mesmo que eles não possam legalmente se casar, eles encontram uma maneira de fazer isso acontecer. Surge um terceiro na relação, a irmã de Kyle. O casal, juntos, podem superar qualquer obstáculo, qualquer barreira, só que ao longo do filme o casal perfeito cai precipitadamente em possessividade, inveja e raiva, esquecendo-se temporariamente que a união poderia auxiliá-los. Infelizmente, somente no final trazem o amor e o respeito para o primeiro plano, e a inesperável tragédia acontece para o pranto e/ou aprendizagem de quem assiste milésimamente os segundos e não podem fazer nada.

Essa é a dádiva do cinema, enquanto telespectador não podemos nada fazer, mas podemos apreender os pontos significativos que nos direcionam e com o aprendizado podemos criar em nossa existência, ramificando, até mesmo sem percebermos, para nossos confluentes, elaborando uma corrente sustentável. Tudo nos ensina. Por isso, como aplicação, destaquemos da história cinematográfica contada três palavras: Amor, União e Casamento, observando principalmente a participação de terceiros numa relação, qualquer que seja. Agora, utilizemos a mesma história.

Imagine que você é Marcel e a pessoa que você diz que ama ou que você idealiza amar, mesmo que não tenha fisionomia, seja Kyle (independente de gênero sexual). Vocês vivem um romance perfeito: compreensivos, amáveis, respeitadores, possuem suas particularidades, são unos e reconhecem a complementariedade do estar com, recriando cotidianamente o relacionamento. Vocês poderiam criar uma bela família. Não sei quem foi o idealizador da máxima, mas dizem que casar com alguém é casar com a família. Foi assim com você e Kyle. Aparece a irmã deste e por diversas razões, sendo elas também pessoais, essa irmã sutilmente usa a irmandade e desestrutura o que era lindo e maravilhoso. Porém ela não fez isso sozinha e na realidade, se observarmos adequadamente, o relacionamento continua perfeito. Porém, vocês, o casal, ofereceram possibilidades para isso; vocês consideraram outras situações como emergentes (a possessividade, a inveja e a raiva) levando ao desentendimento. As forças da União-Amor, não sustentaram a Impetuosidade de vocês; são linhas simultâneas, mas com destinos contraditórios. Não vejo culpados no caso; houve inércia, alienantes e alienados; enfim, todos colaboraram e sempre cooperam para o fato acontecer.


Essa história, bem como a paráfrase que você participou pode ser o seu conto e/ou já presenciado por você, independente da sexualidade ou do estilo de relação que se estabeleceu na sua idealização. Nisto,

a) confio que todas as relações possuem capacidade para serem amorosas.
b) informo-vos que casar nunca é com a família do outro, porém é conviver com ela. Todavia, cada um dos terceiros tem que possuir seus limites, sugeridos pelo casal ou auto-inspirado. (A sentença é verdadeira para todas as relações, quer seja amistosas ou amorosas).

Por fim, lembro-vos que o amor e a perfeição não são estáticos, e continuarão a ter barreiras, portanto, não devemos deixar de apreender o que o universo nos oferece, para recriar incansavelmente esse amor. Vocês escolhem a possibilidade, pois todos podem ser perfeitos ou, no melhor dos piores casos, continuamente escorregar entre o amor e o “adeus”. Ambas as possibilidades são ativas, porém uma, a primeira, é criativa e a outra destrutiva. Por isso, como você pretende agir? Que estilo de relacionamentos NA SOCIEDADE você deseja construir?


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Centros Educacionais do Amor

Martin Heidegger, filósofo alemão no século XX, considerando o seu método fenomenológico afirmou que nem todas as construções são moradas. Parafraseando-o sustento o axioma de que nem todas as instituições escolares são lugares de educação, muitas são de adoração.

Participando, junto com minha Amiga Profissional e Pessoal, de uma aula numa instituição escolar, com o objetivo de buscar recrutas para refletir e praticar a existência surgiu de alguns alunos a questão de quem foi a “pessoa” que criou a escola. O educador, pouco disse, mas tentou argumentar. Rapidamente muitas situações observamos e escutamos, o que posteriormente pudemos experienciar mutuamente no decorrer dos meses com nossos recrutas-agentes.

Primeiramente não foi uma pessoa que criou a escola, mas a união de agentes. Ao contrário de muitos afirmarem que foram com os colonizadores europeus, a introdução escolar não se iniciou nesse período.

A idéia surgiu da filosofia dos gregos antigos. Eles se reuniam em praças públicas para praticar a arte do conhecimento e trocar idéias. É claro que não são todos que podiam participar. Naquele período já havia as leis políticas sendo que as mulheres e os estrangeiros, entre outros eram excluídos.

Se pensarmos que a instituição escolar é um local onde há a troca de idéias, não podemos pensar numa prática em hierarquia: às vezes presidente, e sempre diretor, coordenador, professor e aluno. Todos ensinam, e todos, se quiserem, na possibilidade da oportunidade podem aprender. Nesse local, quando é visada a educação e não a adoração, é um magnífico campo de sublimidade. São diferentes pessoas, histórias distintas que por isso geram conflitos e que na medida do possível poderiam em gradação ser também utilizados como experiência de ensino social e do principal: amor-respeito.

Infelizmente há muito tempo a Educação é banalizada. E o pior, os triviais se encontram lá. É claro que existe quem se manifesta contra isso, quem pratica uma educação verdadeiramente prostituta[1] e democrática, todavia são poucos e confesso que temos que ser sutis. Somos apedrejados e condenados, e a fofoca (que expressa o que até então não existia) passa a ser uma pedra atirada aos amorosos educacionais. Porém, por que não recolher estas pedras e construir um monumento?!

Para quem observa, sente, reflete e pratica, podem confirmar que tais instituições são, atualmente, Casas com celas penitenciárias. Os participantes que estão em silêncio, bem como os que gritam, brigam, choram e receiam são diagnosticados, entre outros, com hiperatividade, depressão e esquizofrenia. Porém eles estão clamando por piedade, por compaixão ao seu existir, ao existir humanitário e do conhecimento. Vocês não sentem, não ouvem, não veem?


Encontramos muitas coisas nesta longa e às vezes estranha jornada que chamamos de vida, mas sobretudo encontramos a nós mesmos. Quem realmente somos e o que é mais importante par nós. Aprendemos o que é verdadeiramente o amor e o que são os relacionamentos. Encontramos a coragem para abrir caminho através da raiva, das lagrimas e do medo (Kessler; Kübler-Ross. Os Segredos da Vida, 2004, p. 56).


Perguntaram a Michelangelo, o grande artista da Renascença, como ele criava magníficas esculturas como a Pietà ou David. Ele explicou que simplesmente imaginava que a estátua já existia dentro do bloco de mármore bruto e era suficiente desbastar o excesso para revelar o que sempre esteve presente (Ibidem, p. 14).


Pensando num lugar de reflexão e prática, encontro muitos. Não são dentro da maioria desses muros escolares que são adoradores do desrespeito, da insensibilidade, da irreflexão e do desamor que serão ensinadas às pessoas a sentirem, refletirem e praticarem o que adquirem do processo ensino-aprendizagem. Há muitos lugares que poderiam ser complementares: num museu, num teatro, entre outros, até mesmo numa praça pública; enfim, na Sociedade. São nestes lugares que poderíamos, e estamos tentando, ensinar, bem como propagar tais ensinamentos pintando as paredes residenciais, ou vice-versa, observando a mutualidade. Não seriam Escolas, contudo, notando que todo lugar é ambiente de educação deveríamos nos referir a eles como Centros Educacionais de Amor (ou abreviadamente, Cenedam).

__________
[1] Prostituta «lat[im] prostitŭo,is,ī,ūtum,ĕre 'colocar diante, expor, apresentar à vista; pôr à venda; mercadejar com a sua eloqüência; prostituir, divulgar, publicar', de pro- 'na frente, diante de' + statuĕre 'pôr, colocar, estabelecer; expor aos olhos', de stātus,us 'repouso, imobilidade; atitude, postura (de um combatente); assento, situação; estado das coisas, modo de ser', do rad[ical] de stātum, sup[i]n[o] de stāre 'estar'». Nisto, no Life Prostitute, compreende-se como colocar o conhecimento – racional e emocional – à frente, expondo-o, praticando-o, vital e existencialmente, enfim, num modo de ser (estilo) de atitude.


domingo, 4 de outubro de 2009

Educação: Importante ou Prioridade?

Educação, Estudo, Aprendizagem. Palavras que representam imensos esforços; possuem simples ações e podem movimentar multidões. Todavia, são atualmente ações isentas de criatividade, bem como deturpadas pelo capital. Referindo-se à multidão: um formigueiro é mais potente que a potência de uma formiga; 10 volts é uma força eletromotriz, porém inferior a 120 volts.

Frise-se que o Ser está existencialmente em constante aprendizado; seu processo de educação advém de contatos/relações, e é sempre uma educação no presente, sobre o passado, para o futuro. E, já que a educação é comandada por um Sistema que visa lucro, o ensino transmitido de relação para relação é favorável a um Ter e não a um Ser Criativo, infelizmente. A transmissão educacional (passado-presente-futuro) não permite criar, apenas reproduzir.

Não são todos, porém, percebe-se que a falta de inovação pessoal impede que se indague sobre os acontecimentos sociais e políticos, bem como pessoais, em que se encontra este conjunto de pessoas.

Este é um assunto mui amplo, e interminável, requerendo muitos argumentos. Aqui, será apresentada uma pequena, mas significativa, pré-introdução, cumulada aos artigos anteriores, porém, confiando no despertar criativo de cada um, necessita-se que VOCÊ, que cada Ser pensador e emocional, busque investigar e transmitir, com atenção, as situações sócioeducacionais, pois a Educação está além do recinto das conhecidas instituições escolares.

O que é necessário, neste momento, atribuindo ao sistema educativo, é responder se ele é importante ou prioritário. Já sabemos que ele é uma questão humana, e devemos entender, outrossim, que ele não deve continuar a ser reprodutor. O ato de estudar, e sua classificação social – prioridade ou importante – exigem mais atenção e compreensão.

Sendo assim, é complexo responder a esta questão. Inicialmente responderia: “Depende.” Baseando-se nos antagonismos de duas classes sociais, que infelizmente vigoram, tentar-se-á entender as dificuldades de responder à pergunta que inicialmente pode parecer tão simples. Arriscar-se-á, também, neste ínterim, continuar a refletir sobre a questão, tendo noção prévia de que são muitas situações contribuintes.

Assim, não generalizando, pode-se observar que o apoio a uma educação prioritária vem de uma classe menos preocupada com a saúde, alimentação, moradia... Menos porque possuem e obtém recursos de fácil alcance que possibilitem solucioná-los.

Entretanto, os que consideram a educação como importante estão em seu modo de viver contraditórios à postura e estilo de vida dos prioritários. Então, com isso compreende-se que para uma classe considerada baixa, as necessidades básicas para a sua sobrevivência e a de seus familiares que, em teoria, são asseguradas pelas Constituição Federal e primeiramente pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, é a extrema prioridade, levando a educação para um segundo plano. À vista disso, pensando na questão, depende; os seres pouco possuem, mas muitos direitos lhes estão teoricamente disponíveis.

Nesse momento, não se pode negar que há divergências significativas quanto à questão. Portanto, todos que estão tendo a possibilidade e oportunidade de leitura, se enganam se afirmarem que aprenderam algo. É necessário para isso, pensar e sentir a verdadeira educação: pois ela é construída em íntegros momentos, por todos e não de poucos sobre muitos; não de um autor para um leitor, pois um e outro demonstram suas idéias, suas reflexões e sensações: ambos devem ingeri-la, mastigá-la, digeri-la, compreendê-la e praticá-la, visto existirem muitos teóricos e poucos práticos.


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Uma Prostituta Desculpa

Como vivemos em prostituições: instituída e democrática, é honrável esclarecer uma atitude corriqueira entre as pessoas e não se refere a pensar e/ou praticar sexo.

Indiscriminadamente, quem nunca ouviu ou até mesmo disse aquela célebre e perturbadora frase: “...não fique bravo(a), é brincadeira!”? A possibilidade é de serem muitas pessoas.

Brincadeira é a ação de brincar. Porém também muitos a usam para entreter e distrair. Na primeira sentença estamos nos referindo a um jogo recreativo; na segunda a uma insinuação.

O interessante é como que essa pequena frase pode ser extremamente atenuante, pois ela "sempre" é expressada quando percebemos que a outra pessoa não se sentiu agradável ao que foi proferido.

A brincadeira exposta naquela célebre frase é "sempre" para distrair e amenizar possíveis conflitos, pois quem a exprimiu a pronunciou por algum motivo. Não foi recreação! Todavia como vivemos numa sociedade eletivamente instituída e perversa, com medo o agente se sente culpado e completa a frase expressando: “Desculpa!” Isso merece um julgamento ou uma reflexão? Óbvio que a segunda. As pessoas não precisam ser penalizadas.

A segunda porque ninguém tem a necessidade democraticamente de pedir desculpa. Isso é instituidamente de má-fé. As situações que afrontam a sociedade devem ser ouvidas e esclarecidas. O dialogar deveria perpetuamente ser o recurso primordial.

Em definições, Culpa se refere à responsabilidade dada à pessoa por um ato que provocou prejuízo material, moral ou espiritual a si mesma ou a outrem. O processo culpabilizador ocorre no plano subjetivo e intersubjetivo ou objetivo.

No sentido subjetivo, a culpa é um sentimento que se apresenta à consciência quando o sujeito avalia seus atos de forma negativa, sentindo-se responsável por falhas, erros e imperfeições. Este processo é estudado pela Ética e pela Psicologia.

No sentido objetivo, ou intersubjetivo, a culpa é um atributo que um grupo aplica a um indivíduo, ao avaliar os seus atos com resultado prejudicial a outros ou a todos. O processo pelo qual se atribui a culpa a um indivíduo é discutido pela Ética, pela Sociologia e pelo Direito.

Quem emitiu quis emitir. Houve um motivo ou causas. Seu intuito foi de interesses. Se formos considerar alguém culpado, todos os envolvidos possuiriam alguma culpa.

O ser humano emitente deve ser responsável por seus atos de interesse, bem como o receptor pelos seus. Ocorre que, muitas vezes o emitente espera do receptor ou vice-versa uma atitude. Não ocorrendo o esperado, emerge a valoração de culpa que pode ter sido ensinada instituidamente por uma ultra-moralidade, pela família ideologizada ou ainda pela religião que instrui os seres a serem pecadores logo que vitalmente surgem, produzindo culpados e solicitadores de clemência para uma vida eterna.

Assim, se o ente é o único responsável pelos seus interesses, ele deve estar consciente de que não deve calar-se como quer a instituição, mas sempre refletir prévia e posteriormente sobre o que expressou, permitindo o pensar, assim como manifestou o filósofo Voltaire: “posso não concordar com tudo o que dizes, mas sempre defenderei o seu direito de dizê-las”.

Nesse sentido, antes de ecoar sua autoflagelação sintética, reflita; pois, na realidade, num ambiente onde o interesse é Amar e educar esse Amor, tudo pode ser revelado, visto que a essência será pensada e não condenada. Por isso, não existem culpados; logo não é viável o desculpar.

Por conseqüência, se algo suscitou sentimentos negativos, estes devem ser reflexionados para um ensino-aprendizagem, e com a minha prostituição democrática: Perdão!, (como afirmação e não indagação).


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Algumas são Relações... Outras Superficiais Convivências

No tramite da existência presenciamos encontros e desencontros. Constantemente nos encontramos diante de pessoas mesmo que não a percebamos, ou seja, caso não nos importemos em ver atentamente.

Uma Relação está direcionada para vários caminhos: familiar, amorosa, educacional e até mesmo psicoterapêutica, entre outras. Pode soar estranho, todavia, existem diversas condutas psicológicas e nem todas dão atenção a pessoa ou, excluindo-se a criatividade, apenas oferecem cega e inflexivelmente o que sua metodologia generalista lhe permite.

No entanto, independente da situação relacional é importante mencionar Ruth Bebermeyer, em sua poética: “Palavras São Janelas (ou São Paredes)”, que constata o campo de relações:


“Sinto-me tão condenada por suas palavras,
Tão julgada e dispensada.
Antes de ir, preciso saber.
Foi isso que você quis dizer?
Antes que eu me levante em minha defesa,
Antes que eu fale com mágoa ou medo,
Antes que eu erga aquela muralha de palavras,
Responda: eu realmente ouvi isso?
Palavras são janelas ou são paredes.
Elas nos condenam ou nos libertam.
Quando eu falar e quando eu ouvir,
Que a luz do amor brilhe através de mim.
Há coisas que preciso dizer,
Coisas que significam muito para mim.
Se minhas palavras não forem claras,
Você me ajudará a me libertar?
Se pareci menosprezar você,
Se você sentiu que não me importei,
Tente escutar por entre minhas palavras
Os sentimentos que compartilhamos.”



Você saberá se possibilita janelas, quando seus interesses continuam, são pensados, lhe proporcionam os objetivos e independente das decisões de outrem você tem apenas sentimentos de alegria e compreensão, pois como afirmei em outro artigo: independente de sexo, sexualidade, condição social, pré-conceitos... amar é o interesse; e ainda, como Bebermeyer expõe em sua composição, de 1978, denominada “Given To”:


“Nunca me sinto mais presenteada
Do que quando você recebe algo de mim
Quando você compreende a alegria que sinto ao lhe dar algo.
E você sabe que estou dando aquilo não para fazer você ficar me devendo
Mas porque quero viver o amor que sinto por você.
Receber algo com boa vontade
Pode ser a maior entrega.
Eu nunca conseguiria separar as duas coisas
Quando você me dá algo,
Eu lhe dou meu receber.
Quando você recebe algo de mim,
Eu me sinto tão presenteada.”



Entretanto, na atualidade, estar junto relacionando-se é quase inexistente e condenar é fácil se há uma simples convivência. Assim, procure refletir sobre “as relações” que você estabelece seja em âmbito pessoal ou profissional. Pondere suas palavras, pois se elas são janelas, proporcionam o criar relacional; se são paredes, bloqueiam a visão e impedem o transitar existencial. Neste caso, tudo seria vaidade, nada mais que vaidade de uma existência subumana.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Situação Ocupacional do Psicólogo

Tarde de inverno. Céu turvo. A temperatura fria, mas agradável. Um vento frio acaricia meus pés. Olho para um livro histórico e psicológico. Lembro-me pela literatura como a Psicologia se tornou Imperatriz numa longa batalha científica de romance e divórcio.

Nos séculos a. C. a psique já imperava nos ensaios dos filósofos que naquele período viveram. A Psicologia, naquele momento, estudava filosoficamente, a alma; ela era instruída por questões e emoções que se embasavam no viver humano, sendo algumas questões centrais: “O que é o pensamento?” “O que é consciência?”; e a questão primordial: “quem sou?”. Aqui razão e emoção namoravam.

No decorrer histórico, com o advento supremo do cristianismo e demais religiões, estas muito contribuíram e muito utilizaram dos primórdios conhecimentos filosófico-psicológicos, sendo as personagens religiosas mais conhecidas São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, entre outros.

Posterior a isso, denominando-se cientificismo, a razão impera levando a alma e suas sensações à senzala. O organismo, a matéria foi o objeto visível e empírico que poderia ser contestado, mas não destronado. Muitos filósofos ainda continuaram os estudos para não deixar os assuntos psíquicos serem condenados a mito. Muito contribuíram.

A Psicologia não é santa. Ela existe e há muitos anos teve interesses fundamentais para conseguir o trono de Imperatriz. No século XIX, simplesmente, com sua habilidade de observar, ouvir e compreender casou-se com a Vossa Majestade Razão, saiu da senzala e conseguiu o título de científica. Todavia, como nem todas as uniões matrimoniais arranjadas são de sucesso amoroso, se divorciaram; porém há familiares que tentam uni-los (ou pelo menos, transmitir a seus descendentes, a afetuosidade existente na intersecção Razão e Emoção). Contudo, uma vez, sempre Imperatriz.

Durante o matrimônio, a Psicologia era calada e emotiva, se utilizava do modelo médico e orgânico utilizado pelas razões em ética, conduta e em relação ao acolhimento, até que planejou e utilizou seu poder, sua criatividade, pois poderia ser mais sensível, da mesma forma quando conquistou o imperador.


Caracteristicamente, a maioria dos ‘tratamentos’ psicológicos sublinha a importância de que o ‘paciente’ assuma um papel ativo no seu tratamento e no estabelecimento de uma relação cooperativa, ao contrário do papel mais passivo que os ‘pacientes’ assumem no sistema médico (Andrade. In Angerami-Camon, 2002, p. 118, grifo meu).


Atualmente a Psicologia, Imperatriz em status científico, se encontra com mais de 125 anos. Está idosa, porém cada vez mais experiente. O Imperador Razão, uma múmia ambulante, às vezes se esquece de alguns assuntos significativos (como a emoção e uma conduta humanizada), e está mais preocupado com o orgânico. O medicamento o guia.

É fato que ambos se divorciaram por um simples motivo: a falta de diálogo. Ambos poderiam se auxiliar, mas não foi por falta de tentativas. A Psicologia tentava conversar, mas a Ciência Orgânica sempre ficava de pensar; ingeria Benzodiazepínicos e...

Sempre ouvi de familiares e companheiros de atividades que não sabem como uma Conversa – ética e profissional – pode lhe auxiliar. Mas um medicamento, uma composição que aparenta ser mágica, rapidamente ingerida, saberia o que fazer. Esse é um raciocínio que não ouve, não percebe, não sente e também não consegue falar. Assim caminham, com química no sistema sanguíneo, significativos humanos. É notável que este pensamento se encontra cristalizado, mas não impossibilitado de ter uma outra conduta.

Com esse pré-conceito da humanidade, não sei por quanto tempo a ciência psicológica vai viver. Apenas sei, que em minha prática ela irá existir em cada palavra de mim emergida. A idade a faz ser tão madura e experiente, podendo em grandeza amparar. No entanto, as pessoas insistem que Conversar não resolve. A psicologia não é sua amiga, geralmente não é gratuita, mas ela é junto com outras abordagens e com seus vieses uma fonte inesgotável de produção de oxigênio; um medicamento natural.

Por isso, cabe lembrar Angerami-Camon refletindo sobre Merleau-Ponty:


Merleau-Ponty coloca que na verdade sabemos aquilo que a interrogação pura não deve ser; o que será só o saberemos tentando. O encontro é indubitável, pois sem ele não nos proporíamos nenhuma questão. Não temos que interpretá-lo, de entrada, seja como uma inclusão naquilo que existe, seja como conclusão daquilo que é em nós (2002, p. 50, grifo meu).


Nesse momento, cabe às pessoas compreenderem a importância desse profissional e a nós, profissionais, possibilitar uma Relação de auxílio e suporte no sentido de reestruturar o equilíbrio biopsicossocial de nossa profissão, não para que esta viva, mas para que ela continue Existindo.

Assim, possibilitar uma relação de olhar o outro, ouvi-lo e auxiliá-lo numa conversa metodológica, é extremamente importante e sabemos que isso é possível.

É uma possibilidade, da mesma forma que uma pequena semente, se cuidada e atendida em suas necessidades, poder crescer e criar galhos, folhas e até mesmo frutos; que pode, num inverno, por um momento, parecer sem existência, mas logo ser empiricamente visível seu Ser. Assim, também é o Ente.

A existência do ser humano é registrada e marcada por momentos contraditórios. O ser pode se alegrar e se entristecer; pode causar ruína, mas também pode criativamente construir.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O Fim Erra Tudo

Há anos ouço, e leio afirmações de que a “morte” é o fim de tudo. Que todos estão destinados a “morrer”.

Numa visão religiosa, a “morte” é o fim de uma vida terrena, para o início de uma vida, digamos, celestial; uma vida de glórias.

As pessoas que sempre me querem “matar” e as que querem me salvar, já ouviram minha idosa dedução existencial: “Eu não nasci, logo não morrerei!”

Declaradamente, muitos não entendem a que me refiro. Não ouso fazer julgamentos sobre isso, mas compreendo a incompreensão e o desconforto, pois é como se O Nada existisse.

Para poder entender, o Ser precisa ter uma noção básica sobre o Desenvolvimento. A noção é: o desenvolvimento é permeado por interesses e influências. Saber disso é deixar a pobreza psíquica e viver a felicidade em cada movimento.

Ao mencionar “desenvolvimento”, pressupõe-se o movimento; e deste a existência. O ser não nasceu, mas emergiu no instante do universo. A origem deste, não é discutível, visto que não se debate por que um filme se inicia no zero segundo. Houve um interesse, e não de quem ou do quê; simplesmente houve um interesse.

Simultaneamente, do movimento se foi criando emergências que se desenharam as existências. Tudo o que se emergiu adveio de interesses, e estes influenciados. Assim, somos o Universo.

Neste instante, sinto em você, meu amado leitor, uma incompreensão. Todavia, com gozo dar-lhe-ei um memorando atual.

Num movimento sexual entre dois seres existenciais que tinham interesses em uma simbiose carnal fazia tempos, que foram influenciados, digamos pela mídia e por amigos que os pressionavam, emergiu uma existência, que é Você!

Durante a existência suja (que é a vida) deles, houveram interesses e influências para que você pudesse emergir, no instante apropriado. Você é influenciado a emergir desde o movimento do universo, todavia só emergiu de fato, em seu momento.

Talvez você pense em determinismo. Sim, é. Porém aqui, é um determinismo flexível, pois se a pessoa (homem ou mulher) que lhe carregava, na possibilidade, tivesse escorregado e rolado por uma escada, com poucos degraus, mas ainda uma escada, digamos que você não estaria vivo, mas ainda existiria.

Não estaria vivo, pois estar vivo é apenas transitar. Mas ainda existiria, porque Existir é atemporal. Haveria um túmulo para você e/ou ainda um papel com seus registros de obituário; cartas de um familiar que ansiava pelos preparativos do “nascimento”, mas acima de tudo, você existiria na memória de muitos que aguardavam lhe segurar.

Quando as pessoas se aposentam vitalmente, elas não morrem, mas continuam a existir em cada um de nós. Existem num rabisco de escola, num ato de auxílio dedicado a alguém, num sonho, num beijo realizado... enfim, suas marcas de influência, seu contato são passos que mantém a sua existência.

Você aprendeu e sentiu muitas coisas, mas talvez não se importou com elas. Você aprendeu a caminhar, a andar de bicicleta, a escrever, a ler, a amarrar o tênis, a beijar... Você entendeu que as folhas balançam porque o vento as tocam... Você percebeu que um vento frio lhe tocou e gelou a pele... Você sentiu que a dor faz de seus olhos lágrimas surgirem... e nesse movimento existencial de interesses e influências constantes, você também ensinou/influenciou muitas pessoas! Você ensinou um filho inventado a caminhar, a andar de bicicleta, a escrever, a ler, a amarrar o tênis, a dançar... Você o auxiliou a entender que as folhas balançam porque o vento as tocam... Você o ajudou a perceber que se um vento frio lhe toca a pele, ele a gela... Você o promoveu a sentir que a dor faz com que de seus olhos lágrimas surjam, mas que um abraço pode confortar... Eu, Você... Nós, juntos, para sempre, é possível!

Por isso, entenda os versos do poeta inglês John Donne:


Morte,
Não seja orgulhosa,
Ainda que poderosa e terrível te possam chamar,
Pois tal não será.

Os que pensa ter deixado para trás,
Esses não morreram,
Pobre morte,
Nem a mim pode levar.

É escrava do destino,
Do acaso,
De reis e da insensatez.

Entre veneno,
Guerra e doença te vejo proliferar.

Se há papoula ou encantos,
Bom sono nos pode proporcionar
E até melhor do que o teu golpe,
Então por que toda essa altivez?

Após um breve sono,
Acordamos eternamente.
E a morte deixará de existir.
Morte,
Você também morrerá.



Você sempre existirá, não apenas como matéria, mas maravilhosa e criativamente em tudo que tocar, como se representasse o papel de uma peça histórica de um museu, que continuará ensinando a muitos. Por isso, exista e aprenda dia-a-dia a criar o seu Amor Inventado e ensine os outros a AMAR.

Porém, hoje infelizmente, muitos se preocupam com um fim, equivocando-se ao procurar um início, perdendo o trâmite das Existências.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O Medo é Divino

Há tempos, busca-se a localização do Jardim do Éden. Esta atitude, além de ser um dos temas centrais de múltiplas lendas e mitos, bem como ser o fato que inspirou inúmeros artistas, sendo uma das mais frequentes a da arte européia, é também uma tentativa de reencontrar a felicidade perdida após a expulsão.

No Paraíso Terrestre havia a Árvore do Conhecimento. Todavia, para que uma árvore do conhecimento? Ora, conhecer é realmente estar diante e subir em uma árvore: respectivamente, observando seus inúmeros galhos e ramificações, e o esforço e estratégia praticados.

Porém, caso queira compreender caminhando pelo viés bíblico, ousando conhecer, para que Deus impediu que Adão e Eva não adquirissem conhecimento, proibindo-os de tocar e comer seus frutos, que, diga-se de passagem, são suculentos? Quem conhece e quer aprender, reconhece a voluptuosidade do continuum saber!

A proibição ocorre porque conhecer é o que Deus tinha medo. Os seres poderiam se auto-comandar. Porém, o pudor e culpa (religiosas) elaboradas pelo criado e lendário pecado, são um poderoso veneno estratégico. As aparências e os boatos podem enganar se as pessoas bloquearem o ato perceptivo; a serpente, naquele momento, era uma amiga. Conhecer é existencial! E hoje, em média, incentiva-se o conhecimento, entretanto, peca-se se conhecer, isto é, pune-se.

E o que isto leva a emergir? Ocorre ao homem, segundo o filósofo Nietzsche, o fato dele acabar por ser capaz de olhar para si e ver uma natureza de encantamento e ao mesmo tempo obscura, misteriosa e perigosa.

O Ser Humano não sabe o que fazer consigo mesmo e está perdido diante de um vasto e longo caminho que é seu. Ele não foi ensinado a pensar e muito menos a praticar adequadamente tais reflexões; apenas a obedecer e reproduzir, através de rédeas legislativas. Expulso de um suposto Paraíso, muitos o esperam, querendo sempre retornar ao passado, visto que o futuro é desconhecido, escuro e incerto, pela ausência do reconhecimento da unicidade do ente.

Quanto a isso, Shakespeare classicamente afirma: “nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com freqüência, poderíamos ganhar, pelo simples medo de arriscar!” No entanto, os próprios homens defecam de medo de si próprios e inventaram o Deus, o Paraíso... que(m) os culpa. Logo, as culpas veem do homem para o homem. Irritante.

Para Nietzsche o cristianismo, entre outros acontecimentos, é originalmente uma religião que encontrou solo fértil no meio de pessoas que viviam na miséria e na opressão; uma religião pobre em auto-estima. Em seus pensamentos, os homens foram banhados na lama com os ideais da divindade.

Então, contemple Ser Divino meu amante, ficando evidente, com louvor, que como se expressa cinematograficamente em Kafka (1991), é mais fácil controlar uma multidão do que um indivíduo. Uma multidão tem um objetivo em comum. O objetivo de um indivíduo é sempre uma incógnita de interesses.


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Pânico no Jardim do Éden

O Jardim do Éden, Jardim das Delícias ou Paraíso Terrestre é na tradição das religiões abraâmicas o local da primitiva habitação do homem.

Na tradição bíblica, o Jardim do Éden, do hebraico “Gan Éden”, é o local onde ocorreram os eventos narrados no Livro do Gênesis, onde é relatada a forma como Deus cria Adão e Eva, planta um jardim no Éden (a oriente), e indica ao homem que havia criado, para o cultivar e guardar.

A ordenança dado por Deus seria a de que o homem podia comer os frutos de todas as árvores do jardim, exceto os da árvore do conhecimento do que é bom e do que é mau. Ao desobedecer esta ordenança e comer esse fruto proibido, Adão e Eva eventualmente ficam a conhecer o bem e o mal, e do pecado nasceu a vergonha e o reconhecimento de estarem nus. Em resultado da desobediência, Deus expulsa o homem do jardim.

Assim, há séculos cria-se um pânico, por uma culpa “ad’evana”. Porém, meus amados, conscientizem-se: se você vive expulso do Paraíso, possivelmente você está no inferno bíblico; logo, se está no inferno, abraçai o capeta. Não adianta fugir, se envergonhar, culpar, ou muito menos se arrepender, das situações que acontecem. É recomendável que as reconheçam e injete criativamente aspectos que possam enriquecê-la positivamente.

O filósofo alemão e niilista Nietzsche, na obra póstuma “Vontade de Potência”, no aforismo 94, se manifesta contra o arrependimento humano, afirmando:


Não gosto dessa espécie de covardia para seu próprio ato; não devemos abandonar a nós mesmos sob o peso de uma vergonha ou de uma aflição inesperadas. Será melhor que a substituamos por uma altivez extrema. Para que servirá afinal de contas? Arrepender-se de uma ação não é anulá-la, e tampouco não se desvanece quando ‘perdoada’ ou ‘expiada’. Seria necessário ser teólogo para acreditar numa potência que destruísse a culpa: nós, imoralistas, preferimos não acreditar em ‘culpa’. Pensamos que todas as ações de qualquer espécie que sejam, são de idêntico valor em seus fundamentos; semelhantemente os atos que se volvem contra nós podem ser, por isso mesmo, úteis sob o aspecto econômico, e desejáveis para o bem público. [...] Eis por que não se deve dizer: ‘Eu não deveria ter feito tal coisa’, mas sempre unicamente: ‘Como é estranho que não tenha realizado isso cem vezes!’ − Afinal de contas, bem poucos atos existem que sejam típicos e apresentem uma verdadeira súmula do indivíduo; e, a considerar quão pouco a maior parte das pessoas são individualidades, perceber-se-á quão raramente um homem é caracterizado, por um ato particular. [...] A cólera, um gesto, um golpe de espada: que neles existe de individual? − O ato traz consigo muitas vezes uma espécie de torpor e de constrangimento, de sorte que o culpado está como fascinado pela recordação e pela sensação de ser somente o atributo de seu ato. Essa perturbação intelectual é uma espécie de hipnotização, que é preciso combater antes de tudo. Um simples ato, seja qual for colocado em paralelo com tudo o que se tem feito, é igual a zero, e pode ser deduzido sem que a conta geral esteja errada”.


Ao mencionar o Jardim das Delícias evidencio que a culpa foi criada. Mas não existe de fato. É um imaginário social que se apresenta cotidianamente como um fragmentador do psiquismo humano, impedindo o ser de se desenvolver e reconhecer seus próprios atos, pois o único fenômeno que veem são erros, que os apeiam, impedindo de se movimentar, e de ser a “Besta Loira” nietzschiana, isto é, aquela que nada temia e para a qual tudo era válido e permitido desde que dai resultasse algo de útil. Assim, continuando no pensamento de Nietzsche: “é preciso que nunca avaliemos um artista pela medida de suas obras”.

Portanto, Acordai-vos. Da Vinci explicou: “Cegante ignorância nos ilude. Ó miseráveis, abri os olhos”; então, com vontade de poder chamo-vos a agir!


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